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Campo Maior,08/05/2026

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Alerta! Influenciadores crescem no Tik Tok explorando carência emocional de idosos enquanto geram dependência

Criadores simulam vídeos românticos e seguidores comentam acreditando estar em um relacionamento. Especialistas alertam para os riscos da solidão e da carência afetiva entre idosos.


Alerta! Influenciadores crescem no Tik Tok explorando carência emocional de idosos enquanto geram dependência

"Você é o amor da minha vida", diz o homem na tela. "Tenho algo especial para você", declara uma mulher, olhando fixamente para a câmera. Nos comentários, centenas de pessoas acreditam ter encontrado um amor. No TikTok, vídeos assim têm se multiplicado: criadores fingem estar se declarando para quem assiste. Criadores de conteúdo têm usado declarações românticas genéricas para engajar pessoas em situação de vulnerabilidade afetiva — e lucrar com isso.

Os vídeos são feitos como se fossem uma chamada, muitos embalados por músicas antigas. Fazem isso justamente para atrair o público mais fiel: pessoas idosas. No final, os "sedutores" pedem curtidas e compartilhamentos como forma de demonstrar afeto – o que, na verdade, atrai a monetização.

Alguns desses perfis têm mais de um milhão de seguidores, com publicações diárias, e reúnem milhares de comentários de pessoas que interagem como se estivessem em um vínculo afetivo.

Especialistas explicam que os casos escancaram a crise da solidão na terceira idade, que afeta homens e mulheres. Com pouco contato com outras pessoas e mais solitários, esses indivíduos enfrentam a carência e encontram, nesses vídeos, a atenção que já não têm mais, mas que pode representar um risco à saúde mental.

"Você percebe que os aspectos relacionados à carência — seja pela falta da presença de amigos, de família, seja pela falta de um cônjuge — aparecem com força. As pessoas tiveram perdas afetivas nessa fase da vida e se sentem mais carentes de afeto e vínculo. Pelo fato de se sentirem invisíveis e ignoradas, elas se apegam facilmente a um conteúdo, a um vídeo. Têm a sensação de que estão recebendo alguma atenção", é o que diz Larissa Fonseca, psicóloga especialista em ansiedade e depressão.

Até poucos meses atrás, esses influenciadores alimentavam a mentira, sem deixar claro que estavam fazendo os vídeos por engajamento. Nos últimos meses, após relatos de golpes usando suas imagens, passaram a incluir avisos de que eram apenas personagens.

O advogado especialista em crimes digitais Danilo Pardi explica que, apesar de os golpes não serem aplicados pelos donos dos perfis, há responsabilidade indireta, já que eles alimentam uma mentira, fazendo de pessoas vulneráveis iscas para criminosos.

Os ‘sedutores de idosos’

Um deles é o perfil do homem que se diz chamar José Fernandes. Ele tem cerca de 700 mil seguidores e mais de 18 milhões de curtidas. Todo o engajamento foi conquistado com esse tipo de conteúdo, focado em mulheres.

No final dos vídeos, ele pede que as seguidoras curtam e compartilhem para demonstrar afeto e até para conversar com ele – o que não é verdade. Os comentários na conta nunca são respondidos. Mas a estratégia funciona: o g1 analisou mais de 50 vídeos, e a maioria tinha mais de mil comentários. Todo esse engajamento pode ser revertido em monetização para o criador.

Outro caso é o da mulher que diz se chamar Monica Santos. Nos vídeos, ela conversa com homens, chama de amor, diz estar apaixonada e que quer muito conversar com eles. Ao final, também pede pelo engajamento, sob a promessa de que vão conseguir seu contato ou falar com ela, o que também não é verdade.

Monica tem 1,6 milhão de seguidores nas redes sociais e 28 milhões de curtidas em seu perfil, que só traz conteúdos desse tipo.

Nos últimos meses, esses criadores tiveram que vir a público explicar que, apesar do conteúdo, não é bem assim: eles são personagens e não entram em contato com os seguidores. Isso tudo porque, segundo contam, criminosos estavam usando sua imagem para aplicar golpes.

No caso de José Fernandes, ele disse que chegou a registrar um boletim de ocorrência porque recebeu a informação de que criminosos usaram sua imagem para enganar uma seguidora. Nos comentários, algumas relatam prejuízos de até R$ 9 mil depois de receberem ligações com pessoas que usavam a imagem do perfil no TikTok.

Nos vídeos, José Fernandes conta que tem um relacionamento, filho e que não está em busca de uma relação – tudo não passa de encenação. Após postar um dos vídeos com a explicação, seguidoras disseram estar de coração partido e se sentiram traídas por ele, que estava em outra relação.

O advogado especialista em crimes digitais Danilo Pardi afirma que a forma como o conteúdo é feito, somada ao público-alvo mais vulnerável, cria um contexto propício para golpes. Com isso, ainda que o criador não seja o responsável direto pelo crime, ele alimenta esse cenário, mesmo que de forma involuntária.

“Quando um conteúdo emocional é produzido em larga escala, com foco em atrair idosos vulneráveis, é preciso reconhecer que existe responsabilidade. Não se trata de censura, mas de responsabilidade digital. O princípio do conteúdo pode até não ser aplicar o golpe, mas, se o efeito prático está sendo o aliciamento de vítimas, é dever da plataforma agir e do próprio influenciador de repensar como e para quem está falando”, explica.

A solidão na terceira idade

E o que explica os idosos acreditarem que estão mantendo um relacionamento com uma pessoa que nunca viram na internet?

  • O primeiro ponto é a falta de letramento digital, que faz com que acreditem que os vídeos são exclusivamente para eles.
  • O segundo ponto, segundo especialistas, tem a ver com a solidão na terceira idade e a incidência de depressão.

Por que essas pessoas produzem esse tipo de conteúdo?

De acordo com a professora da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora em comunicação digital, Issaaf Karhawi, os vídeos que simulam romance com quem assiste fazem parte de uma lógica mais ampla de produção de conteúdo moldada pelas regras de monetização do TikTok.

A plataforma remunera quem publica vídeos, mas, para começar a ganhar dinheiro, os criadores precisam atender a critérios como número mínimo de seguidores e visualizações, além de produzir vídeos autorais com certas características de duração e formato.

“Quando alguém decide ser um criador, essa pessoa se sujeita à lógica da plataformização, que exige o atendimento a parâmetros e métricas específicas da plataforma. Criadores usam estratégias sutis e sedutoras para incentivar o engajamento (como pedir para o usuário ‘fazer o coração ficar vermelho’) justamente porque entendem que estão à mercê dessas dinâmicas e métricas para conseguir monetizar ou ter visualizações qualificadas”, afirma a especialista.

Ou seja, os vídeos são feitos para engajar. Usam 'gatilhos' que levam ao compartilhamento e às curtidas e, com isso, tudo é revertido em monetização. O g1 perguntou à plataforma se os perfis citados na reportagem são monetizados, mas a resposta recebida foi que só o criador poderia confirmar. Na análise dos perfis, no entanto, todos seguem os pré-requisitos.

Para Issaaf, isso é intensificado pelo contexto econômico do país. Com o aumento da inflação e a instabilidade, muitas pessoas veem na plataforma uma forma de ganhar dinheiro, de fazer uma renda extra, mas, muitas vezes, sem entender a dimensão da responsabilidade que isso traz.

“Tem relação com a questão econômica no Brasil e a percepção de que o TikTok vai ser uma possibilidade de renda fazendo alguma coisa simples, mas, na verdade, quando alguém decide produzir conteúdo nas redes sociais, essa pessoa se vê à mercê da lógica da plataformização”, explica.

Fonte: g1




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